A mãe do Willy Beamish não era ninguém. Aquele programa de computador em que tentava convencê-la a deixar o miúdo sair para brincar com os amigos era, na verdade, meu espelho — eu sentado no escuro diante do monitor, pais na sala ao lado querendo saber por que ainda não saía de casa. Adventures of Willy Beamish é uma point-and-click adventure da Dynamix de 1991, e consegue fazer algo raro: torna a vida de um rapazinho americano de pré-adolescência mais interessante do que parece.

O jogo passa-se num subúrbio americano típico do final dos anos oitenta, onde Willy — um miúdo comum com desejos comuns — precisa de navegar pelas suas férias de verão. Não há monstros cósmicos nem assaltos a templos antigos. O drama é local: lidar com a mãe protectora, conquistar a rapariga da vizinhança, escapar-se para o parque de diversões, roubar jogo de vídeo proibido dos amigos. A Dynamix tinha experiência em contar histórias humanas — vindas de jogos como Leisure Suit Larry — e aqui aplicou essa sensibilidade a algo completamente diferente: a infância.
Controlas Willy com o rato, apontas e clicas como em qualquer adventure da época. O que faz a diferença é a lógica dos puzzles. Não são daqueles absurdos que exigem ligar um abacaxi a uma escada por razões cósmicas. São problemas que uma criança resolveria — arranjar dinheiro para o parque, descobrir como entrar num sítio onde não deveria, convencer um miúdo a trocar um item por outro. As conversas têm espaço para escolhas que moldam a narrativa e a opinião que as pessoas têm de Willy. Isso era avançado para 1991.

O que envelheceu: a paleta de cores é corpulenta e o ritmo, por vezes, arrastado. Há partes em que esperas que uma personagem volte a falar, ou em que um puzzle é tão específico que não consegues avançar sem clicar em cada pixel da tela. A versão em MS-DOS merecia melhor qualidade de som, embora a música de fundo fizesse seu trabalho.

Hoje Willy Beamish é um retrato estranho e tocante de uma infância completamente desaparecida — sem telemóvel, sem redes sociais, apenas um rapazinho que quer brincar e a mãe que quer que ele estude. Se gostas de histórias contadas devagar, e de puzzles que têm sentido no contexto da vida real, compensa procurar isto numa emulação. É uma joia da Dynamix que mereceu mais atenção do que recebeu.